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Especial

Bicampeão mundial sub-23, Uncas Tales sonha com primeira medalha olímpica do remo brasileiro

Atleta do Botafogo vai disputar regata

As respostas curtas e o tom de voz baixo escancaram o desconforto de Uncas Tales em ser o centro das atenções. À vontade mesmo, o remador se sente quando está na água, dentro de um barco e acelerando até a linha de chegada. Em julho, na Polônia, acelerou tanto que ganhou a medalha de ouro no Mundial sub-23 da categoria single skiff peso leve, repetindo o resultado do ano anterior, na Bulgária. As conquistas são fruto de pelo menos quatro horas diárias de treino e criam uma expectativa sobre o jovem de 21 anos, que sonha em conquistar a primeira medalha olímpica da história do remo brasileiro.

– Quero ser campeão em 2024 e 2028. Em 2020 não tenho certeza (se vai dar), está muito em cima – comenta o bicampeão mundial, que vai disputar neste domingo, na Lagoa, a penúltima etapa do Campeonato Estadual de Remo e vai receber uma homenagem da Federação de Remo do Rio.

Apesar de dizer que não pensa em medalha para Tóquio, o discurso descrente de Uncas já é conhecido entre os companheiros de treino na Sede Naútica do Botafogo, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Entre as duas conquistas mundiais, o mineiro, de Belo Horizonte, viveu um ano complicado. Sofrendo com uma sinusite crônica, via sua imunidade baixar cada vez que aumentava o ritmo dos treinamentos e precisou pegar leve em alguns momentos.

A temporada difícil, abalou a confiança do remador, que tinha certeza que não iria conseguir defender o título conquistado um ano antes.

– Todo mundo veio me dizer que sabia que eu seria campeão, só eu que não acreditava. O pessoal me vê reclamando e brinca que já sabe que eu vou ganhar. Talvez eu tenha que ter mais confiança – reflete.

Se Uncas ainda espera a ficha de que é bicampeão mundial cair, os jovens remadores do Botafogo já o veem como um espelho. Como não gosta muito de falar, tenta ser um exemplo através de suas ações. Todos os dias sai de São Cristovão às 5 da manhã, antes do sol nascer, e pega um ônibus para ser o primeiro a chegar na Lagoa. Rotina que repete desde o fim de 2011, quando se matriculou na escolinha de remo despretensiosamente, apenas para ocupar as tardes livres.

Dois anos depois, Uncas fez sua primeira viagem internacional para competir. Hoje, graças ao esporte, já conheceu 14 países e coleciona títulos. Além dos mundiais, venceu campeonatos brasileiros adultos, estaduais e foi vice sul-americano.

ESP Rio de Janeiro (RJ) 17/08/2018. Uncas Tales, bi-campeão mundial de remo sub 21. Sede náutica do Botafogo, na Lagoa Rodrigo de Freitas. Foto Custodio Coimbra – Custódio Coimbra / Agência O Globo 

As conquistas o credenciaram como uma promessa. O atleta recebe apoio financeiro do Botafogo e também da Marinha, onde é Terceiro Sargento.

Para realizar o sonho da medalha, Uncas vai precisar se adaptar. A categoria em que ele foi campeão mundial não está nas Olimpíadas. Por isso, vai competir no Skiff duplo leve. Mas ainda não decidiu quem será seu parceiro.

Apesar da ascensão rápida desde suas primeira remadas até os mundiais, Uncas não tem pressa e se mantém completamente focado. Quando não está na faculdade – levo como pode o quarto período de contabilidade, à noite -, o remador diz que gosta de ficar em casa e passa seu tempo estudando futuros adversários.

– É um cara puro, muito especial e totalmente disciplinado. É um líder sem impor liderança. Chegar antes da hora do treino é muito natural para ele – comenta Paulinho de Souza, técnico de Uncas no Botafogo desde seus primeiros dias na escolinha – o remo é um esporte que se sai de um ponto e chega no outro, você não vai conseguir cruzar a dois mil metros com uma remada. Você tem que dar 240 das suas melhores remadas e aprender a respeitar o tempo.

Paciente, o atleta é assertivo ao responder o que falta para chegar ao ponto em que pode se tornar campeão olímpiíco:

– Não falta nada, só o tempo para treinar e me desenvolver.